quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Erros concernentes ao Crescimento na Graça - J. I. Packer


O Crescimento na Graça é Visível

O primeiro erro é imaginar que o crescimento na graça é sempre fácil de ser visto.

O crescimento físico, como observamos anteriormente, pode ser facilmente mensurado. Não há dificuldade alguma na verificação do peso e altura de uma pessoa. No entanto, o crescimento espiritual é um mistério no sentido teológico da palavra - uma realidade que tem, em si, mais do que podemos entender ou monitorar. Neste sentido, realidades como a Trindade, a criação, a providência, a encarnação do Filho e a nossa regeneração são mistérios. De fato, tudo que envolve a interação de Deus com o seu mundo é mistério como o definimos, e o crescimento na graça é um caso em questão.

Por meio do próprio ensino de Deus nas Escrituras, conhecemos uma boa parte de todos esses mistérios, mas é apenas o tipo de conhecimento que nos permite identificá-los, concebê-los e limitá-los. Não se trata de um conhecimento exaustivo, nem é o tipo de conhecimento que nos permite controlá-los. Por mais que conheçamos a revelação bíblica da verdade divina como um todo, os mistérios de Deus, testemunhados por essa verdade, ainda continuam sendo mistérios.

O crescimento na graça é um processo realizado pelo Espírito Santo que centra-se no coração humano, não no sentido fisiológico da palavra. O coração, como vimos, é o centro dinâmico e controlador do nosso eu. É a fonte de onde brotam nossos pensamentos e palavras, nossos desejos, decisões e ações. Podemos imaginar o estado do coração, quer do nosso ou do coração do outro, observando o que sai dele, mas não podemos inspecioná-lo diretamente para ver o que está acontecendo nele.

A Bíblia enfatiza que o coração é acessível somente para Deus. "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? Eu, o Senhor, esquadrinho o coração" (Jr 17.9,10). "Só tu, és conhecedor do coração de todos os filhos dos homens" (lRs 8.39). O que se processa no coração está além da capacidade humana de acompanhar.

Isto não significa, no entanto, que é impossível observar o momento em que se dá o crescimento espiritual. A qualidade das respostas de uma pessoa a uma crise, choque ou exigências de uma nova situação pode revelar toda sorte de coisas a seu respeito que não sabíamos antes - e uma dessas coisas pode muito bem ser a sua estatura espiritual.
Portanto, foi isso (para citar apenas um exemplo) que aconteceu com uma mulher de nome desconhecido, a quem chamamos de Sra. Manoá, cuja história lemos no capítulo 13 de Juizes. O Anjo do Senhor (Deus agindo como seu próprio mensageiro; uma pré-encarnação, ao que parece, de Deus Filho) disse-lhe que ela teria uma criança especial (Sansão), que se tornaria o libertador de Israel. O anjo deu-lhe instruções especiais sobre como se preparar para o nascimento. Quando ela contou o acontecido a Manoá, ele (ao que parece, um machista chauvinista pretensiosamente piedoso) orou para que o anjo voltasse e lhes desse outras instruções. Ele estava claramente consciente de sua posição de liderança espiritual. Do mesmo modo está claro que não confiou que a esposa tivesse entendido bem a mensagem. O mensageiro graciosamente reapareceu e repetiu as instruções. Então veio o momento traumático em que Manoá percebeu que quem os visitara fora o próprio Senhor. A ostentação deu lugar ao pânico. O homem que, até aquele momento, havia assumido sua própria superioridade espiritual perdeu completamente a pose. Ele diz para a esposa: "Certamente, morreremos, porque vimos a Deus" (Jz 13.22). Ele sabia, de modo geral, que ninguém tinha condições de ter comunhão com Deus e, portanto, entrou em desespero.

Felizmente, sua esposa, que, até aquele ponto da História, parecia ser uma pessoa muito discreta, agora surge como uma mulher sábia, que fielmente ministra ao marido algumas boas idéias sobre a fidelidade de Deus às suas próprias promessas. "Se o Senhor nos quisera matar, não aceitaria de nossas mãos o holocausto e a oferta de manjares, nem nos teria mostrado tudo isto, nem nos teria revelado tais coisas" (Jz 13.23). Como escreveu Kipling: "Se você pode manterá calma quando todos ao seu redor o estão perdendo e lhe culpando por isso (...) você será um Homem, meu filho!" Humana e espiritualmente falando, a esposa de Manoá aparece aqui como um "Homem", no sentido dado por Kipling, enquanto seu marido agia de acordo com a sua própria idéia do que seria uma mulher irracional - de fato, como uma criança com medo. Assim, a reação da Sra. Manoá ao choque revelou-a como uma mulher que vinha crescendo espiritualmente, ao contrário de seu marido, que trazia toda a sua árdua e diligente religiosidade. Os filhos de Deus não nascem com estatura, mas ganham estatura por meio do crescimento. A esposa de Manoá tem uma grande estatura nesta História.

Novamente, um momento crítico de teste pode provocar uma resposta que mostra que uma pessoa cresceu espiritualmente de um determinado modo desde a última vez que foi testada. Assim aconteceu com Abraão, a quem Deus tinha a intenção de exibir como um modelo permanente de fé (Rm 4, principalmente os versículos lie 16-25; Gl 3.6-9,14; Hb 6.13-15). A fé, que produz justificação, comunhão com Deus e herança dos benefícios prometidos, é uma questão de obediência na confiança e confiança na obediência. Deus mantém tanto a nossa confiança como a nossa obediência sob um exame constante, e, neste caso, ambas foram desafiadas ao mesmo tempo.

Deus coloca à prova a fé de Abraão ao máximo dizendo-lhe que deveria oferecer seu filho Isaque, filho da promessa de Deus e herdeiro das promessas de Deus, como sacrifício humano. Mal podemos imaginar a confusão, agonia e desespero na mente de Abraão enquanto subia o Monte Moriá com Isaque ao seu lado e a faca à mão. Contudo, Abraão passou no teste de uma maneira magnífica, de modo que, no último minuto, quando o anjo do Senhor (novamente Deus agindo como seu próprio mensageiro) interveio na metade do sacrifício, ele pôde dizer: "Pois agora sei que temes a Deus, porquanto não me negaste o filho, o teu único filho" (Gn 22.12).

Três décadas antes, no entanto, a História tinha sido bem diferente. Tendo re-cebido a promessa de um filho aos setenta e cinco anos, Abraão, agora com oitenta e seis anos torna-se pai de Ismael, filho que teve com Hagar, obviamente crendo, juntamente com Sara, que não havia esperança desta última ficar grávida - o que Deus havia dito há onze anos (Gn 16). Esta foi uma atitude clara de falta de fé.

O que, então, acontecera durante os anos entre o nascimento de Ismael e o sacrifício de Isaque? Em resumo, Abraão tinha crescido. Quando, treze anos após o nascimento de Ismael, Deus renovou a promessa de um filho a Abraão e Sara (Gn 17.15-19), Abraão tornou-se um homem diferente. Desta vez ele con¬fiou totalmente na palavra de Deus. Paulo fala com eloqüência sobre o modo como "sem enfraquecer na fé, embora levasse em conta o seu próprio corpo amortecido, sendo já de cem anos, e a idade avançada de Sara, não duvidou, por incredulidade, da promessa de Deus; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera" (Rm 4.19-21). Durante aquele período de treze anos, Abraão cresceu na fé.

Sem dúvida, foi a lembrança do nascimento miraculoso de Isaque que sustentou Abraão no Monte Moriá, de modo que foi possível dizer: "Pela fé, Abraão, quando posto à prova, ofereceu Isaque; estava mesmo para sacrificar o seu unigênito aquele que acolheu alegremente as promessas, a quem se tinha dito: Em Isaque será chamada a tua descendência; porque considerou que Deus era poderoso até para ressuscitá-lo dentre os mortos, de onde também, figuradamente, o recobrou" (Hb 11.17-19).

As ações de Abraão sob sucessivos testes revelam seu crescimento na graça específica da fé. De igual modo, o contraste entre a vergonhosa covardia de Pedro ao negar Jesus e sua ousadia desafiante, mais tarde, ao recusar deixar de falar do mestre (Mt 26.69-75; também At 4.13-20,29; 5.17-32) mostra seu crescimento após o Pentecostes, na graça específica da intrepidez (o que, segundo J. C. Ryle, é "a fé honestamente cumprindo o seu papel"3).

A obra de Deus no íntimo do cristão, que induz ao crescimento, permanece oculta de nós, mas os momentos de teste provocam respostas que mostram que o crescimento é um fato. Isto, no entanto, é tudo o que pode ser dito sobre o acompanhamento do processo de crescimento. Ele realmente não nos leva muito longe. Os momentos de pressão e decisão tirarão das pessoas o que está dentro delas em termos espirituais, bem como em outros aspectos. Mas, em outras ocasiões, seu crescimento na graça, a intensidade de seu zelo e seus dons e potenciais para o ministério, que normalmente se desenvolvem a partir de seu crescimento na graça e de sua intensidade no zelo, são difíceis de serem vistos. É um erro esperar o contrário. Nossos julgamentos quanto a quem cresceu e não cresceu na graça e a medida desse crescimento naqueles que, portanto, cresceram só podem ser provisórios. Todos esses julgamentos são perigosos e podem facilmente ser falsificados pela próxima seqüência de eventos, de modo que seria realmente melhor e mais inteligente não fazê-los.

O Crescimento na Graça é Uniforme

Um segundo erro é pensar que o crescimento na graça é sempre um processo uniforme, seja ele mesmo durante os estágios da vida de um cristão, ou seja em comparação ao que Deus está fazendo na vida de outros. O crescimento na graça não é, em nenhum sentido, uniforme.

Este erro está ligado ao primeiro que acabamos de ver, mas eu o trato separadamente porque é muito comum e fácil de ocorrer. A superficialidade nos trai. Entendemos o crescimento físico como um processo contínuo, e o mesmo com relação a todos os seres humanos. Então, em termos simplistas, projetamos estas idéias no campo da graça. Entretanto, a verdade é que, como o crescimento físico é, de alguma maneira, irregular, e as pessoas, muito diferentes umas das outras, assim também as mudanças e desenvolvimentos em indivíduos que fazem parte do crescimento em santidade, variam de uma pessoa para outra em velocidade, grau e no que poderíamos chamar de proporção interna.

Simão, um homem brusco, impetuoso, bom, irracional e instável, passou pela experiência do Pentecostes e, repentinamente, tornou-se uma pessoa lúcida, firme, resoluta, perspicaz e o primeiro braço direito da igreja - Cefas, a rocha que Jesus disse que seria (Jo 1.42). João, veemente, rude e cabeça quente, a quem Jesus apelidou de Filho do Trovão (Mc 3.17; por sua rudeza, veja Lc 9.49,54), também passou pelo Pentecostes. No entanto, não existe indicação da mesma rapidez no processo que o mudou de uma pessoa com qualidades antagônicas que queria o "preto no branco", que era "a favor ou contra", no apóstolo amoroso, de simplicidade profunda e paciente moderação, conforme vemos em suas cartas. Mas, se Simão foi rapidamente transformado, e João, lentamente, o que isto quer dizer? Eles eram homens diferentes. A graça santificadora operou diferentemente neles, maximizando sua individualidade (Deus gosta da diversidade; a clonagem não é o método que usa) e dando proeminência, no produto desenvolvido às diferentes facetas da gloriosa semelhança de Cristo, a qual nenhuma pessoa, nem um apóstolo, pode encarnar em sua totalidade.

A qualidade precisa da mudança envolvida no crescimento de uma pessoa na graça é sempre condicionada pela sua constituição natural. É fácil subestimar as realizações do Espírito Santo na vida daqueles que, além da oposição a Deus e a divinização de si mesmos, que são as marcas do pecado original, sofrem com temperamentos e caráter problemáticos. O grupo de personagens temerosos, intimados, e memoráveis depressores, listados no livro O Peregrino, de Bunyan, que continuavam lutando como cristãos, embora se achassem atormentados pelo sentimento terrível de que jamais alcançariam o céu, reflete uma obra da graça mais profunda do que a uma fé e uma estabilidade mais firme de uma pessoa igualmente natural.

A moderação parcial do temperamento furioso de algum colérico, ou o degelo parcial da frieza emocional de algum fleumático, ou a cura parcial da precipitação irresponsável de algum sangüíneo, ou a libertação parcial de algum melancólico de sua obsessão paralisante do desespero, pode muito bem indicar uma medida maior do crescimento na graça - crescimento na graça por meio da graça de Deus em Cristo, como a estamos analisando agora - do que a que se acha nos santos mais realistas, energéticos, corajosos e amigáveis que nunca têm de conviver com estes defeitos particulares em si mesmos. Ter de lutar contra o seu temperamento na busca das virtudes cristãs pode levá-lo a sentir que seu progresso é muito mais lento do que o dos outros, mas talvez não seja assim.

Cristo nos encontra em lugares diferentes em termos de nosso caráter e história pessoal, e ele atua em nós pelo seu Espírito no lugar onde nos encontra. Embora um de nós possa ter certas qualidades naturais que o outro não tem, todos nós somos, no sentido mais profundo, como navios espirituais arrebentados, necessitando de uma operação salvadora divina direcionada para os aspectos específicos de nossa condição. Portanto, não é de admirar se a obra de santificação de Deus, que produz saúde e crescimento, for detalhadamente diferente em termos de forma, e parecer avançar em diferentes velocidades, na vida de pessoas diferentes.

Uma vez que grande parte desta obra, nos outros e em nós mesmos, acontece no coração, abaixo do nível da consciência, nunca podemos medir a sua extensão atual ou até onde ela pode chegar, em qualquer caso. Qualquer comparação que façamos entre o seu progresso em uma ou outra pessoa é marcada pela ignorância e falácia, assim é melhor que aprendamos a não fazer essa comparação. As únicas generalizações seguras que podemos fazer são:

        a semelhança moral e espiritual com Cristo é o alvo em todos os casos;

        todos os cristãos podem testificar que o conhecimento de Deus por meio de Cristo os capacita agora a viver e agir de maneiras que estavam simplesmente além de sua capacidade natural;

        um cristão professo, que não pode dar esse testemunho, dificilmente pode ser genuíno e, certamente, não está crescendo na graça.

O Crescimento na Graça é Automático

Um terceiro erro que cometemos é pensar que o crescimento na graça é automático, no caso de a pessoa ser um profissional religioso, quer seja um ministro, missionário, obreiro em período integral, evangelista na televisão, frade ou freira. Na verdade, o crescimento na graça nunca é automático. Ser um profissional cristão torna as coisas ainda mais difíceis nesta área do crescimento espiritual.

Por quê? A razão é que, uma vez que espera-se, como podemos dizer, que o profissional seja atuante - no cumprimento de funções, e nada mais - a tentação de assumir uma forma adequada para desempenhar uma função com o uso de uma máscara, na qual sua personalidade fica oculta, é muito grande. A identidade profissional, então, consome a identidade pessoal, de modo que esse profissional não se relaciona intimamente com ninguém, nem com o povo nem com Deus. Ele se torna uma pessoa solitária. E para piorar ainda mais, uma vez que a vida é formada de relacionamentos, e atrás de sua máscara ele se distanciou dos outros, a tendência é que venha a diminuir e não crescer como pessoa. E ninguém pode crescer na graça se estiver afundando no geral.

Quando minha esposa costumava me dizer: "Não quero seu ministério, quero você", ela estava me dizendo que temia que esta tentação estivesse me dominando. Quando Peter Sellers, aquele extraordinário ator de cinema já falecido, recusou um convite para ser filmado lendo a Bíblia, a razão que deu foi a de que você só pode ler a Bíblia convincentemente se souber quem você é - e ele não sabia quem ele era. Todos os cristãos precisam da ajuda de Deus para descobrir quem são e viver com ele e com suas próprias particularidades humanas de forma honesta, íntegra e sensível. Contudo, os profissionais cristãos precisam muito desta ajuda.

O Crescimento na Graça é Proteção

Um quarto erro é pensar que o crescimento na graça protege uma pessoa das marcas, dores epressões de sua vida cristã. A idéia que persiste é a de que o crescimento na graça traz um tipo de paz interior que protege emocionalmente uma pessoa de ser afetada da maneira que os outros são. Mas, de fato, ele faz exatamente o contrário.

Existem, na verdade, estados mentais nos quais as pessoas se tornam insensíveis, de qualquer forma, aos sentimentos de dor e tristeza pessoal. Existem os estados mentais de absorção de si mesmo nos quais as pessoas se tornam insensíveis ao que acontece ao seu redor, de modo que não se comovem com a miséria dos outros. Mas não existe nada da graça de Deus que sustente esses estados mentais, mesmo quando o escapismo e a dureza de coração que eles expressam têm roupagem religiosa.

A verdade pode ser dita de duas maneiras. Primeiro, os cristãos não estão mais isentos de passar pelas marcas, dores e pressões do que estiveram Paulo e Jesus. (Imagine Jesus, no Getsêmani e na cruz, e Paulo, com seu espinho na carne - alguma deficiência dolorosa, não sabemos qual - e sua vida em meio a perseguições, prisões e naufrágios.) Segundo, os cristãos podem e enfrentam a dor pessoal na força divina, alegrando-se como Paulo com o modo como esse poder se aperfeiçoa em sua fraqueza (2Co 12.10). Mas, à medida que crescem na graça, eles ficam cada vez mais angustiados com as tristezas e dores dos outros (lembre-se de Jesus chorando por Jerusalém em Lc 9.41-44, e Paulo agonizando diante da descrença dos judeus emRm 9.1-4; 10.1). A compaixão gera mais tensão para os cristãos em crescimento do que para os outros homens.    . É uma verdade cada vez maior que esses cristãos em crescimento desfrutam do dom da paz dado por Deus, mas a paz em questão é relacionai:

        a paz com o próprio Deus por meio do sangue pacificador de Cristo;

        a paz com as circunstâncias, que, não importando quais sejam, Deus prometeu que contribuiriam para o nosso bem (ou seja, nosso crescimento na graça);

        a paz consigo mesmo, porque o perdão e a aceitação desses cristãos por Cristo exige que eles se perdoem e se aceitem, por mais difícil que isso possa parecer; e

        a paz com aqueles que estão ao seu redor, a quem Jesus os envia como pacificadores (Mt 5.9).

Não é a paz da tranqüilidade olímpica inexorável, obtida e mantida pela ignorância da agonia dos outros.

Os cristãos em crescimento crescem em paz, mas seu crescimento na graça quase sempre os mantêm gemendo em graça uma vez que a compaixão semelhante à de Cristo domina cada vez mais o coração desses cristãos. Deus não ensina que a vida de seus filhos neste mundo tragicamente decaído será livre de tristezas, e nós podemos dizer com convicção que os que estão livres de tristezas e dores, ainda que isso seja verdade, não estão crescendo na graça.

O Crescimento na Graça é um Refúgio

Um quinto e último erro é pensar que o crescimento na graça pode ser aprofundado mediante a fuga dos lugares duros da vida, das pesadas responsabilidades e dos relacionamentos prejudiciais. Há séculos, as pessoas trocaram a dura correria e desordem do mundo pela proteção do mosteiro na tentativa de salvar sua alma. Ainda defende-se a idéia de que este é o caminho a seguir para obter o verdadeiro desenvolvimento espiritual. Mas este não é o caso. É possível que haja boas razões pelas quais alguns cristãos deveriam escolher viver a vida em uma reclusão relativa, mas a crença de que este é o único caminho para que cresçam não é uma delas.

Uma mulher cristã de meia-idade, notável em sua profissão, vivia com os seus pais. Eles ainda a tratavam como uma garotinha, cuja primeira tarefa era cuidar

deles. Sentindo que não poderia sobreviver, para não mencionar a impossibilidade de crescer espiritualmente, naquela situação, ela planejou deixá-los. Uma ministração centrada no quinto mandamento e em Romanos 8.28 mudou seu ponto-de-vista. Ela retornou em paz para um relacionamento irritante, sabendo que aquele era o lugar onde deveria estar. Assim, ela cresceu na graça.

Os cristãos crescem na proporção em que aceitam o seu destino de tomar a cruz e negar-se a si mesmo (Lc 9.23). Diferente das orquídeas, eles não crescem como plantas de estufa. Jesus não viveu a vida de uma planta de estufa, fugindo da abrasividade da vida, e ele não planeja nenhuma fuga para os seus discípulos.

A sabedoria, então, nos direciona a tirar os olhos destas cinco luzes falsas, e procurar por uma melhor iluminação que possa revelar tudo que contém o nosso quadro de crescimento na graça.

Igreja x Igreja = Pregadores x Pregadores













Por Pastor João de Souza

Ao longo desses anos Deus tem me proporcionado viver intensamente a igreja – em seu sentido mais amplo e verdadeiro. Refiro-me a igreja de Jesus Cristo composta de todos os redimidos e salvos. Quando falo em igreja não me refiro a igreja institucionalizada, sejam denominações ou não-denominações ou aos nomes que se dão a igreja. Sim, porque existem muitas igrejas que se dizem não serem denominações, mas agem ou mantêm uma estrutura de governo eclesiástico pior que algumas denominações. Às vezes seus poucos membros são mais denominacionais que os milhares de outra igreja que vivem sob a égide de um nome denominacional.
Vivo no meio da igreja, desviando-me aqui e ali dos obstáculos que podem me levar a tropeçar nos meandros do eclesiologismo com sua política nefanda. Explico. Avesso que sou a toda política eclesiástica consigo encontrar no meio da confusão babilônica que hoje se chama “igreja” os fieis que não se rendem ao sistema nem apupam líderes que vivem no erro.
Conheço igrejas de vários matizes, mas posso dividi-las em apenas duas: Igrejas que priorizam relacionamentos e propósitos, e igrejas sem relacionamentos. Nas igrejas que têm relacionamentos e trabalham com propósito, todos canalizam seus esforços para a vinda do reino de Deus, diferentemente daquelas igrejas que usam dos relacionamentos para manter seu sistema denominacional. As igrejas que priorizam os relacionamentos não se preocupam com o que acontece nas reuniões, mas enfatizam o que acontece entre as reuniões. Não procuram o seu próprio bem-estar, mas o bem-estar do reino!
Nessa jornada da fé percebo que algumas igrejas convidam pregadores e cantores, não porque estes sejam homens ou mulheres de Deus, mas porque precisam manter a agenda da igreja e os cultos com boa frequência. A igreja institucionalizada – isto é, aquela que busca seu próprio interesse e se utiliza dos membros para buscar fama e poder – não valoriza relacionamentos entre os irmãos. Aliás, quanto menos as pessoas se conhecerem e andarem juntas, melhor para o sistema.
As igrejas que buscam relacionamentos anelam crescer na fé e, para tanto buscam homens e mulheres de Deus que os ajudem nesse crescimento que favorecerá unicamente o reino de Deus.
Diferentemente de igrejas que veem nos conferencistas apenas um profissional eclesiástico, e não um homem de Deus. Para este tipo de igreja os pregadores são como material descartável: Usa-se e se joga fora! Isto permitiu a proliferação de pregadores que satisfazem os interesses da igreja institucional que estabelecem preços e cachês de profissionais; são os preletores de autoajuda, porque sabem que são tratados como profissionais eclesiásticos. E, como são tidos por material descartável é importante que sejam descartáveis de alto preço. É nesse sentido que as grandes celebrações das igrejas – as marchas para Jesus, o dia da Bíblia etc., que são pagos com o dinheiro público atraiam profissionais que cobram preços elevados, sejam cantores, bandas ou pregadores.
As igrejas que buscam relacionamentos agem de maneira diferente. Querem ouvir, aprender e, depois que o pregador vai embora continuam mantendo uma amizade de amor e de ajuda, remoendo as pregações, analisando os conselhos recebidos, porque não tratam o preletor como um profissional do clero, mas como homem de Deus. Ao contrário detestam o profissionalismo eclesiástico e mantêm vínculos com os homens de Deus tratando-os como verdadeiros profetas ou apóstolos que cooperam para o serviço do reino de Deus.
As igrejas institucionalizadas que tratam os pregadores e mestres como profissionais cumprem uma agenda de cultos para satisfazer a curiosidade de seus membros, e os programas da igreja. Convidam certos pregadores porque estes produzem coceiras nos ouvidos dos membros da igreja. São pregadores que dizem o que o povo quer ouvir; e são valorizados porque embalam a vida espiritual do povo. São pregadores que não deixam o povo inquieto com seus pecados, bem ao contrário, tais pregadores jamais aguçam seus ouvintes com esta palavra tão feia. São pregadores profissionais que sabem como produzir coceira espiritual no povo, e suas preleções têm aparência de fogo de Deus, mas é palha que logo se consome e cujo fogo logo se apaga. O verdadeiro avivamento queima lentamente as toras enquanto transforma os corações.
Desculpe-me dizer, mas o Brasil está cheio de pregadores que produzem coceiras nos ouvidos; profissionais da pregação que encontraram na igreja institucionalizada seu filão financeiro. Sim, porque descobriram que a igreja que não deseja relacionamentos está interessada em profissionais do clero; em pregadores charmosos; em profetas que falam o que o povo quer ouvir, e, para tanto, essas igrejas estão dispostas a pagar altas somas, porque o preço é justo, mesmo sendo salgado! E, por isso, muitos pregadores se profissionalizam como palestrantes dos mais diversos temas; não porque amam aquele povo que os convida, nem porque amam a vinda do reino de Deus, mas porque sabem que esse tipo de igreja exige que haja profissionais do clero, e não homens de Deus.
No entanto, a igreja que prioriza relacionamentos não vive à cata de profissionais para pregar em seus cultos, mas de homens com ministérios reconhecidos que lhes ajudem a cumprir o projeto de Deus na terra. Nesse tipo de igreja os vínculos permanecem. Os pregadores convidados são bem-tratados e honrados como mestres, apóstolos, profetas e pastores, conforme a descrição de Efésios 4.11 e não como apóstolos ou profetas profissionais!
Continuo a percorrer os caminhos da igreja discernindo com clareza quando sou chamado como profissional – e sou tentado a fixar um preço – ou quando sou chamado porque meu ministério é reconhecido e considerado importante para o desenvolvimento da igreja que me convida.

O Deus que Vê - C. H. Spurgeon


Viu Deus que a luz era boa. Gênesis 1.4

Observe a atenção especial que o Senhor deu à luz. "Viu Deus que a luz era boa" — Ele olhou para a luz com cuidado, contemplou-a com prazer e viu que ela era boa. Se o Senhor já lhe outorgou luz, Ele a contempla com especial interesse. Essa luz é apreciada por Deus não somente porque é uma obra de suas próprias mãos, mas porque ela é semelhante a Ele mesmo, porque Deus é luz. E agradável para o crente saber que os olhos de Deus observam com ternura a obra da graça que Ele mesmo começou.


Deus nunca perde de vista o tesouro que Ele colocou em nossos vasos de barro. Às vezes, não podemos ver a luz, mas Deus sempre a vê. Saber que pertenço ao povo de Deus é reconfortante para mim; mas pouco importa se estou ciente disso ou não. Se o Senhor me conhece, eu estou seguro. Este é o fundamento: "O Senhor conhece os que lhe pertencem" (2 Timóteo 2.19).


Talvez você esteja suspirando e lamentando por causa de seus pecados ou chorando por causa de suas trevas; o Senhor, porém, vê a luz em seu coração. Ele a colocou ali. Toda a obscuridade e a melancolia de sua alma não podem ocultar sua luz dos graciosos olhos do Senhor Jesus. Você pode ter se aprofundado em desânimo e mesmo em desespero. No entanto, se a sua alma tem algum desejo intenso por Cristo e se você está procurando descansar na obra consumada dEle, Deus vê a luz em seu coração. Deus não somente a vê, Ele também a preserva em você.

Este é um pensamento valioso para aqueles que, após um ansioso vigiar e guardar a si mesmos, sentem a sua própria falta de capacidade para fazer tal coisa. A luz preservada pela graça de Deus um dia se desenvolverá no esplendor do meio-dia e na plenitude da glória. A luz em nosso íntimo é a aurora do dia eterno.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Minha vida é diferente? – M. Lloyd-Jones


«. . . desde que Jesus entrou no meu coração. . .»

Minha fé cristã influi em minha idéia da vida e a dirige em todos os aspectos? Declaro-me cristão e seguidor da fé cristã; a pergunta que agora me faço é: «Será que essa minha fé cristã afeta meu conceito da vida, no todo e nos pormenores? ela está sempre determinando a minha reação e a minha resposta às coisas específicas que acontecem?» Ou então, podemos colocar a questão assim: «Está claro e óbvio para mim e para toda gente que toda a minha abordagem da vida, a minha concepção essencial da vida, em geral e em particular, difere completamente da do que não é cristão?» É preciso que o seja.

O Sermão da Montanha começa com as bem-aventuranças. Estas descrevem pessoas totalmente diversas de todas as demais, tão diferentes como a luz das trevas, tão diferentes como o sal da putrefação. Se, pois, somos dife¬rentes no essencial, temos que ser diferentes em nossa maneira de ver todas as coisas e em nossa reação a tudo que sucede. Não conheço melhor indagação que uma pessoa possa fazer a si própria, em quaisquer circunstâncias, do que essa. Quando lhe sobrevier algo que o transtorne, pergunte-se: «Minha reação é essencialmente diversa do que seria se eu não fosse cristão?» Lembremo-nos do ensino. . . que consta no final do capítulo cinco do Evangelho (segundo Mateus).

Você decerto lembra que nosso Senhor colocou a questão em termos como estes: «Se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis mais do que os outros?» E isso. Cristão é aquele que faz «mais do que os outros». É aquele que é absolutamente diferente. E, se em cada detalhe de sua vida, não penetrou este seu cristianismo, você é um cristão de tipo muito inferior, é um homem de «pequena fé».

Viva para a Eternidade! - Paul Washer


Fonte: http://bereianos.blogspot.com/

domingo, 2 de janeiro de 2011

Todos devem conhecer a Deus



Nem sequer entre os bárbaros e completamente selvagens é possível encontrar um homem que careça de certo sentido religioso; e isso é devido a que todos nós temos sido criados para este fim: conhecer a Majestade de nosso Criador e, uma vez conhecida, tê-lo em grande estima por acima de tudo, e honrá-lo com todo temor, amor e reverência.

Deixando de lado os infiéis, que só tratam de apagar de sua memória este sentido de Deus, implantando em seus corações, nós, os que fazemos confissão de piedade, devemos ter presente que esta vida caduca e que pronto acabará, não deveria ser outra coisa senão uma meditação da imortalidade. Agora bem, em nenhuma parte podemos achar a vida eterna e imortal, se não for em Deus. Portanto, o principal cuidado e preocupação de nossa vida deve consistir em buscar a Deus e aspirar a Ele com todo o afeto de nosso coração e encontrar o único repouso somente nEle.

João Calvino

O que é um Cristão?



Meditação sobre 2 Coríntios 5.14-15
Por John Piper 

Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.
O que significa ser um cristão? 
Charles Hodge, um dos grandes teólogos reformados do século XIX, achou a resposta neste texto: "É ser constrangido por um senso do amor de nosso divino Senhor, de tal modo que Lhe consagramos nossa vida".
Ser um cristão não significa apenas crer, de coração, que Cristo morreu por nós. Significa "ser constrangido" pelo amor demonstrado nesse ato. A verdade nos pressiona. Ela força e se apropria; impele e controla. A verdade nos cerca, não nos deixando fugir. Ela nos prende em gozo.
Como a verdade faz isso? 
Paulo disse que o amor de Cristo o constrangia por causa de um julgamento que ele fazia a respeito da morte: "Julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram". Paulo se tornou cristão não somente por meio da decisão com base no fato de que Cristo morreu pelos pecadores, mas também por meio do sábio discernimento de que a morte de Cristo foi também a morte de todos aqueles em favor dos quais Ele morreu.

Em outras palavras, tornar-se um cristão é chegar a crer não somente que Cristo morreu por seu povo, mas também que todo o seu povo morreu quando Ele morreu. Tornar-se um cristão é, primeira¬mente, fazer esta pergunta: estou convencido de que Cristo morreu por mim e de que eu morri nEle? Estou pronto a morrer, a fim de viver no poder do amor dEle e para a demonstração da sua glória. Em segundo lugar, tornar-se um cristão significa responder sim, de coração.
O amor de Cristo nos constrange a responder sim. Sentimos tanto amor fluindo da morte de Cristo para nós, que descobrimos nossa morte na morte dEle — nossa morte para todas as lealdades rivais. Somos tão dominados ("constrangidos") pelo amor de Cristo, que o mundo desaparece, como que diante de olhos mortos. O futuro abre um amplo campo de amor.
Um cristão é uma pessoa que vive sob o constrangimento do amor de Cristo. O cristianismo não é meramente crer num conjunto de doutrinas a respeito do amor de Cristo. É uma experiência de ser constrangido por esse amor — passado, presente, futuro.
Entretanto, esse constrangimento surge de um juízo que fazemos sobre a morte de Cristo: "Quando Ele morreu, eu morri". É um julgamento profundo. "Assim como o pecado de Adão foi, legal e eficazmente, o pecado de toda a raça, assim também a morte de Cristo foi, legal e eficazmente, a morte de seu povo."2 Visto que nossa morte já aconteceu, não temos mais condenação (Rm 8.1-3). Isto é a essência do amor de Cristo por nós. Por meio de sua morte imerecida, Cristo morreu nossa morte bem merecida e abriu o seu futuro como o nosso futuro.
Portanto, o juízo que fazemos sobre a sua morte resulta em sermos constrangidos pelo amor dEle. Veja como Charles Hodge expressou isso: "Um cristão é alguém que reconhece a Jesus como o Cristo, o Filho do Deus vivo, como Deus manifestado em carne, que nos amou e morreu por nossa redenção. E também uma pessoa afetada por um senso do amor deste Deus encarnado, a ponto de ser constrangida a fazer da vontade de Cristo a norma de sua obediência e da glória de Cristo o grande alvo em favor do qual ela vive".
Como não viver por Aquele que morreu nossa morte, para que vivamos por sua vida? Ser um cristão é ser constrangido pelo amor de Cristo.